Pogonotriccus eximius: a misteriosa espécie presente em florestas estacionais do Vale do Rio Grande e Paraná.
A espécie Pogonotriccus eximius, conhecida em seu nome vernáculo como barbudinho é um elemento tipicamente atlântico, presente em florestas ombrófilas ou semideciduais de Missiones, sul e sudeste do Brasil, intimamente ligado às formações vegetais próximas à água, no passado sua distribuição era relativamente mais ampla ou ao menos era mais presente em toda sua distribuição, algo distinto nos dias atuais. No estado de São Paulo os registros desta espécie constavam até as proximidades da foz do Rio Tietê, no Rio Paraná, atualmente não consta em praticamente nenhuma listagem ou amostragens nestas regiões ao centro ou norte do estado, em contrapartida ainda é localizado com maior facilidade no estado vizinho, em Minas Gerais, nas florestas de vales da Serra da Canastra.
Em tese, a principal causa do desaparecimento da espécie nestas áreas mais "secas" de sua distribuição é resultado legítimo da alta fragmentação e degradação de seu habitat, também não descartando a pressão causada pela pecuária e lavouras. O habitat desta espécie é marcado por uma alta retirada de madeira e em alguns casos represamento das águas em trechos de cursos de água. A entrada de animais como bovinos e o contato do ambiente com agrotóxicos fazem com que a presença desta espécie seja desafiada ao máximo. Entretanto, não se pode descartar que há ainda falta de amostragens corretas e insistentes, focadas em localizar a espécie em determinados locais. Trazendo este fato em pauta, apresento neste artigo observações da espécie, realizadas na divisa de Minas Gerais com o estado de São Paulo, no município de Frutal:
Em 28 de janeiro de 2018, durante um dia fresco e bastante chuvoso, meu tio Milton (mateiro e parceiro de campo) e eu resolvemos não realizar uma saída em campo mais distante, que estava planejada. Entretanto, por volta das 06:30h da manhã, quando a chuva parecia ter dado uma trégua, resolvi sair sozinho em uma observação de aves despretensiosa em um trecho de floresta de galeria não inundável próximo à cidade, cerca de cinco quilômetros do centro urbano, no córrego Bebedouro. Durante o percurso observava um casal de Circus buffoni caçando nas proximidades da estrada, além de constar com aves comuns na região como Monasa nigrifrons, Momotus momota, Crax fasciolata, entre outros. Devido ao despreparo do momento, resolvi apenas circular a vegetação pela estrada que acompanha a cerca, a estrada divide uma lavoura de cana da parte da vegetação. Acabei tendo a surpresa de observar um indivíduo de Puma concolor, que seguia da borda da mata para seu interior.
Por volta das 09:05h, em um trecho da vegetação me despertou atenção uma vocalização bem distinta de que rotineiramente não ouvia na região, uma intensa vocalização trinada, aguda e ondulada. Parando bem na borda da mata, buscava atentamente nas copas da mata quando, próximo à cerca, em uma árvore pequena entre oito a nove metros de altura me surpreendeu um par de pequenas aves: a coloração ventral e predominante era de um amarelo forte, estendendo de parte da garganta ao crisso, as retrizes apresentavam uma tonalidade olivácea, tanto na parte superior como inferior, coloração também predominante no manto e parte das coberteiras e remiges, estas últimas por sua vez apresentando tonalidades mais acinzentadas nas bordas. A cabeça apresentava um padrão bastante distinto, predominantemente escuras a coroa, penas auriculares e loro, em contraste as penas procedentes às auriculares e sobrancelha com coloração branca, as bochechas ainda em tonalidade amarela, parte do mento de coloração esbranquiçada, pouco visível. Chamava atenção seus olhos grandes e bico pequeno, com uma cabeça relativamente quadrada. As aves forrageavam relativamente inquietas entre as galhadas, permanecendo especialmente em posição ereta, vocalizavam bem durante um período e depois se calaram. Após cerca de dois minutos na borda da vegetação, as duas aves voaram para o interior da floresta. Tratavam-se de dois indivíduos de P. eximius.
A observação realizada no estado de Minas Gerais, surpreendeu os dados das amostragens daquela campanha. A vegetação em que a espécie foi observada se tratava de uma floresta transacional, com forte influência de floresta estacional semidecidual e partes de cerrado, o córrego bastante limpo, não tão fundo e com grande presença de pedras. Surpreendia tamanha proximidade da espécie com o centro urbano e com uma rodovia, a MG 252 — por sinal, a mesma mata em que foi documentado Phyllomyias reiseri.
Após a observação, foram realizadas diversas buscas na tentativa de visualizar a espécie novamente, foram os mais diversificados locais em que possivelmente ainda teriam a presença da espécie, no entanto não havia sido observada mais nenhuma vez, sequer no ambiente pioneiro. Em 4 de setembro de 2020, no mesmo ambiente da primeira observação, acompanhando um bando misto de Herpsilochmus longitostris, Herpsilochmus atricapillus, Tachyphonus coronatus, Eucometis penicillata, Thamnophilus pelzeni e Thamnophilus doliatus foi brevemente focado no binóculo uma pequena ave com as mesmas características observadas em 2018, desta vez apenas um único indivíduo. Naquele momento, comentando com meu amigo e naturalista Estevão F Santos, preferi não confirmar devido a velocidade do ocorrido, não permitindo ver detalhes da cabeça, apenas o corpo amarelo e oliva, sem coberteiras marcadas, mas com as remiges com bordas escuras. Rondava a dúvida ainda: seria possível a espécie estar isolada naquele fragmento? Até pouco tempo, acreditava que sim, talvez ali seria o último local em que alguns indivíduos da espécie tenham sobrevivido. Foi então em julho de 2021 que entendi estar equivocado, no dia 25/07/2021 em uma floresta de galeria não inundável secundaria, porém com resquícios de mata tardia com diversas garapas (Apuleia leiocarpa), perobas-rosas (Aspidosperma polyneuron), ouvi novamente a vocalização incomum de P. eximius, desta vez não consegui sequer localizar a ave que encontrava-se ainda mais no interior da vegetação. Em ambas ocasiões, tanto em 2018 quanto em 2021 o ambiente da espécie estava cercado por lavouras de cana e a presença de pasto e, por consequência, entrada de gado, apesar de que no ambiente da última observação isto ocorra mais raramente.
A presença da espécie em dois cursos de água da região, áreas secundárias com um grau de conservação não tão bom sugeriu que a espécie ainda poderia ocorrer em outros córregos na região, não apenas no estado de Minas Gerais, mas também no estado de São Paulo. A ausência de registros atuais no estado vizinho não necessariamente configura uma extinção local, mas aqui deixo um adendo: a espécie corre um sério risco de desaparecer destas áreas e está sendo deixada de ser observada, estudada por uma falta de amostragens corretas e mais capacitadas de busca, talvez seja importantíssimo lidar com essas procuras, mesmo que demorem anos para ter algum resultado. No cenário brasileiro atual, em especial as áreas interioranas de Mata Atlântica com transição com cerrado, a vegetação nativa sofreu e ainda sofre pressão antrópica e climática, de décadas para cá a região sofreu diversas extinções locais e ainda estamos lidando com isto, ao vivo. Costumo comparar a região noroeste do estado de São Paulo, triângulo mineiro e sul de Goiás com o Centro de Endemismos de Pernambuco, pois ambas as áreas sofrem com uma pressão antropica altíssima e perderam significamente parte de sua biodiversidade. A presença histórica de uma espécie tão rara e pouco conhecida como Pogonotriccus eximius deveria ser considerada a partir do momento em que houvesse a diminuição de registros, um estudo comprometido em tirar conclusões ecológicas da espécie em ambientes tão degradados seria o minimo para reconsiderarmos e tentar ao menos possuir uma parte da história-natural do país, talvez estejamos lidando com a última década em que a espécie ainda pode ser observada nessas áreas.
Esta espécie em particular, considero um dos grandes mistérios da mata atlântica interiorana do estado de São Paulo e Minas Gerais, é um verdadeiro triunfo ainda podermos observar uma espécie tão exigente em ambientes tão degradados, no entanto precisamos de muitos esforços amostrais para que possamos ainda conhecer e talvez, possivelmente, ainda observarmos por mais tempo. Para meus leitores que tenham possibilidade de explorar as áreas em São Paulo, deixo o recado, pois não apenas há a possibilidade de encontrar esta, mas outras diversas espécies que há muito estão desaparecidas ou são pouco conhecidas.
Abaixo, os respectivos ambientes em que foram encontrados os indivíduos, florestas de galeria não inundáveis com forte influência atlântica vegetal e animal, raros trechos inundáveis. A vegetação é dominada por espécies vegetais de médio a grande porte como Apuleia leiocarpa, Anadenanthera colubrina, Plathymenia reticulata, Pseudobombax grandiflorum, Hymenaea coubaril, Dilodendron bipinnatum, Aspidosperma polyneurum, Cariniana estrellensis, Handroanthus impetiginosus, Handroanthus ochraceus e serratifolius, Handroanthus roseoalbus, Myracrodruon urundeuva, Albizia niopoides, Astronium fraxinifolium, Senegalia polyphyla, Calophyllum brasiliensis, Protium heptaphyllus, Ormosia arborea, Copaifera langsdorffii, Cedrella odorata e fissilis, Nectandra sp. Possui uma boa quantidade de bromelias.
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