Monitoramento de Aves de Rapina: a verdade das rapineiras em São Paulo.

Campo Limpo Paulista, São Paulo.

Minha história com a observação de aves e as aves de rapina estão intimamente relacionadas, não necessariamente foram as rapineiras que fizeram-me interessar pelo mundo destes animais alados, mas foram parte importante disso. 
Quando criança, as únicas espécies que realmente eram abundantes para observação através de meu quintal eram justamente as aves deste grupo, os primeiros anos foram verdadeiros ensinamentos ao ver diversas espécies do meu quintal ou quando saía de carro, logo meus olhos foram treinados para buscar e olhar atentamente qualquer rapinante que pudesse. 

Em 2015, durante o intervalo da escola, em um dia nublado e frio de Maio, foi observado um casal de Amadonastur lacernulatus, vernaculamente gavião-pombo-pequeno. Essas aves foram verdadeiras surpresas na época, dois indivíduos de uma espécie tipicamente florestal sobrevoando os telhados de casas e instituições. Na época não havia nenhum outro registro da espécie acima dos 800m de altitude, nenhum registro para o Estado de São Paulo fora da Serra do Mar — hoje se sabe que a espécie pode ser observada em altitudes acima de 1000m. Instantes depois também foi observada uma fêmea de Geranoaetus melanoleucus e um indivíduo de Buteo albonotatus, na época ambas espécies com registros quase ausentes no estado. Estas observações, registros inéditos para a região de Jundiaí e relevantes para o estado de São Paulo fez-me pensar na elaboração de um projeto, assim nascia o projeto Monitoramento de Aves de Rapina. 

O projeto atuou de 2015 a 2020 no estado de São Paulo, com ênfase na região de Jundiaí e em viagens realizadas pelo estado e em Minas Gerais, na região do vale do Rio Grande, no triângulo mineiro. Os resultados foram os mais variados possíveis e, neste blog pretendo realizar a publicação de alguns destes resultados em algumas publicações ao longo destas semanas. Assim o projeto colocou-me frente a frente com profissionais excelentes da área como o Doutor Jorge Albuquerque, Willian Menq, Frederick Pallinger, Tomas Sigrist, entre outros. 

Durante o período foram registradas 52 espécies de aves de rapina diurnas e 16 espécies noturnas, praticamente todas as espécies que constam na lista estadual. No entanto, os resultados são ainda mais surpreendentes não exatamente por quantidade, mas sim no ambiente em que foram coletadas as informações: em mais de 90% das amostragens as observações foram realizadas em ambiente urbano da cidade de Campo Limpo Paulista, sendo 70% destas observações feitas em meu próprio quintal de casa. O restante das observações variavam entre pontos periurbanos durante viagens, centros urbanos de outras cidades como Jundiaí, Atibaia, São Paulo, Jarinu, Campinas ou outras. 

O estudo trouxe informações valiosas sobre o convívio das rapineiras com os meios florestais mais abruptamente distintos: a Floresta atlântica e a floresta urbana. Nas próximas semanas contaremos com publicações dos seguintes capítulos, não necessariamente nesta ordem:

- Uma vaca voadora: Harpia no estado de São Paulo.

- Os apacanins urbanos.

- Segredos da águia fantasma: Morphnus guianensis. 

- Os tauatós e as cidades. 

- Harpyhaliaetus coronatus, a águia mais adaptada às áreas fragmentadas da mata atlântica Paulista.

- Migrantes de verão: Buteo platypterus, Buteo swainsoni e Icnitia mississippiensis.

- Percnohierax leucorrhous, um dos menos conhecidos tauatós do Brasil. 

- O vagante Circus cinereus.

- Corujas da cidade. 

- O subestimado Falco deiroleucus. 

- A vida dos falcões nos centros urbanos. 

- Buteo albonotatus no estado de São Paulo. 

- Buteo brachyurus, um super-gavião. 

- Os gaviões nos centros urbanos. 

- Dinâmicas das aves de rapina em relação ao clima. 

- As dinâmicas das aves de rapina nos centros urbanos e ambientes naturais. 

    Henrique Mariano em um dos pontos de pesquisa, a horta comunitária, 2 quilômetros de sua casa. Janeiro 2020.

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