Harpias no estado de São Paulo

 


Campo Limpo Paulista, São Paulo

Projeto de Monitoramento de Aves de Rapina


Por vezes o trabalho de um ornitólogo se confunde com o de um detetive ao necessitar investigar profundamente algumas espécies, especialmente as pouco conhecidas e isto ocorre com certa frequência, na verdade. Um dos grandes casos que ocorreram durante a atuação do MAR em São Paulo foi o caso que envolvia a maior águia das Américas: a Harpia harpyja. A espécie em particular durante os anos 2000 até a atualidade permanece praticamente "inexistente" no estado, com uma completa ausência de registros recentes. Na época, em 2016 ainda muito jovens, outros membros do projeto e eu sequer imaginávamos a presença desta águia na região de Jundiaí, no entanto como o grande amigo e ornitólogo Doutor Jorge Albuquerque diz: são os bichos que mandam. 

Em 28 de Fevereiro de 2016, um dia chuvoso e frio, houve uma reunião na casa de Kaique, um dos membros do projeto, a casa ficava nas proximidades de dois grandes fragmentos florestais que faziam ligação da zona urbana com a zona rural. Foi por volta das 18:10 (descartando o antigo horário de verão) que ouvimos três piados de uma vocalização extremamente distinta, um piado rasgado e extremamente alto de águia, automaticamente sabíamos se tratar de uma Harpia. Incrédulos saímos correndo em busca de observar a espécie, no entanto nada foi visto. Assim iniciava uma grande caçada e investigação sobre a grande águia, algumas perguntas se faziam muito presentes como: porque estava na cidade? Seria migração, deslocamento? Será que já existiam na região? 

Imagens de satélite: Google Earth. Ponto aproximado da casa de Kaique.


Foi a partir deste dia que o MAR abraçou a causa de estudar e entender a dinâmica das grandes águias em áreas da região, uma verdadeira força tarefa foi organizada: os três membros do projeto ficariam realizando observações, na tentativa de, com certa amostragem registrar a espécie novamente, além disso, investigando os registros históricos da espécie no estado e assim entendendo um pouco da história natural da espécie. Um dos pontos também seria tentar entender a presença da espécie em zonas urbanas, como seria possível? 

Neste período debruçados sobre bibliografias encontramos diversos fatores:  no mapa de distribuição de Harpia  descobrimos que já havia um registro na região de Jundiaí, resultando então em uma hipótese de possível população na Serra do Japi. Também observamos diversos registros da espécie em zona urbana, alguns indivíduos jovens e outros adultos, especialmente concentrados no norte do país na Amazônia e parte do Cerrado, mas apenas um único registro documentado em artigo científico, todos os outros sendo registros fotográficos ou em vídeos. A ideia de que a espécie poderia realizar tais movimentos em áreas urbanas apenas na Amazônia era uma hipótese totalmente descartada por nosso grupo, especialmente com o argumento de que "na Amazônia é diferente, existe mais comida", pois em várias cidades com fragmentos florestais na mata atlântica a presença de mamíferos e aves de médio a grande porte também é altíssima, em Campo Limpo Paulista é um desses exemplos, em centro urbano podemos observar mamíferos como Sapajus nigritus, Alouatta guariba, Callicebus nigrifrons, Callithrix aurita, Callithrix penicilata, Cerdocyon thous, Hydrochoerus hydrochaeris, Myocastor coypus, Sciurus sp, Leopardus sp, Didelphis sp, Nasua nasua, Daptrius sp, Mazama sp, Penelope obscura, Cryptyrellus obsoletus, até a presença de predadores como Puma concolor. Dr Jorge Albuquerque ressalta isso após começarmos a conversar, existe uma forte presença de biomassa na maior parte das cidades, o que resulta na aproximação de grandes predadores. 

Tendo isto em vista, o projeto engajava então em uma nova fase: o monitoramento de Harpia harpyja na região de Jundiaí, pela falta de logística não havia possibilidade de sairmos longe em busca de resultados, então as observações eram realizadas ali mesmo na cidade, do próprio quintal. Parecia algo impossível, sentados esperando um fantasma surgir nos céus ou nas copas, mas não é que dava certo?  Durante 2016 e 2017 registramos a espécie vocalmente e visualmente algumas vezes, particularmente não observei a espécie, apenas ouvi mais uma vez, mas os outros membros (Eric e Kaique) conseguiram resultados melhores. Os registros foram nos meses de Abril, Junho e Novembro de 2016 e março de 2017, a maioria ouvindo vocalizações nas primeiras horas do dia, mas em Junho de 2016 Eric conseguiu visualizar a tão esperada águia. Por volta das 09:00h, enquanto estava realizando observações em seu quintal, visualizou um grande vulto sentido aos eucaliptos próximos à casa, em um dos paredões do morro, resolveu correr na tentativa de observar o que pousou nos eucaliptos. Chegando próximo ao aglomerado de árvores, visualizou uma águia extremamente grande de tarsos enormes, com cauda longa e barrada, ventre branco com um colar negro e cabeça cinza, logo percebeu estar frente a frente com o objeto de estudo, a águia logo se retirou voando para o outro lado do vale, cruzando os fragmentos peri-urbanos. 

Imagens de satélite: Google Earth. Ponto de observação do indivíduo visualizado por Eric e a direção em que a ave deslocou. 

Este foi um fato que deixou todo o projeto em comemoração, seria o primeiro registro realmente observado da espécie em zona urbana. Durante este período estivemos também atrás de relatos, a tentativa de entender o convívio entre a espécie e os moradores locais, o conhecimento popular sobre o meio natural em sua volta. Curiosamente muitos moradores revelaram conhecer uma grande águia esbranquiçada, geralmente preta e branca que se alimentava de macacos e gambá, a maior parte dos relatos consistiam em zona rural ou em áreas transacionais de zona urbana e rural, sendo geralmente relatados invidivuos em deslocamento e, mais raramente, caçando. Um relato em particular despertou muita curiosidade, um senhor que morava em meio à uma área florestal, próxima à zona urbana de Campo Limpo Paulista, contou que enquanto observava um grupo de bugios de sua varanda percebeu que os macacos se encontravam mais inquietos que o normal, foi então que logo observou uma grande ave de rapina esbranquiçada, preta e branca, capturando um dos indivíduos do grupo e carregando-o em suas garras. Os relatos concentravam especialmente nos municípios de Jundiaí, Várzea Paulista, Campo Limpo Paulista, Jarinu, Atibaia e Franco da Rocha, a maioria dos nomes populares dados à espécie eram: gavião-rei, gavião-real, gavião-pega-macaco e harpia, propriamente.

Registros:

Em 2017 obtivemos apenas um único registro em zona urbana, passando praticamente o ano todo sem nenhuma observação, ainda mais que constavamos focados também em outras espécies igualmente desconhecidas como Hieraspiza supercilliosa, Accipiter poliogaster, Spizaetus ornatus e Morphnus guianensis, mas isso é assunto para outra postagem. Em 2018 o projeto deixou de possuir a totalidade de membros, a maioria dos integrantes mudaram de cidade e deixaram de colaborar com as observações. Entretanto foi apenas neste ano que foi realizado o primeiro registro documentado da espécie. Em 06/08/2018, voltando da cidade de Jundiaí, em um dia bastante chuvoso e frio foi observada uma grande fêmea pousada em uma árvore pequena, no alto de um morro sem nenhuma mata em Várzea Paulista, exatamente no ponto: 23°11'59"S 46°50'49"W à 770 m de altitude. A observação foi realizada em um ponto curioso, em uma área realmente cercada de áreas urbanas com alguns fragmentos de florestas. 

Anotação de Campo da observação de Harpia harpyja em Várzea Paulista. Arquivo pessoal.

Imaginava que demorariam meses para uma nova observação da espécie, no entanto no dia 09/08/2018, ainda sob influência da frente fria (o dia com mínima de 8°C e máxima de 18° C), estava presente em minha casa, observando as aves de meu quintal quando visualizei por volta das 10:40h em meio a um grupo de Coragyps atratus, uma grande águia. No momento imaginava se tratar de uma Harpyhaliaetus coronatus fêmea, mas estranhamente parecia mais pesado e maior, com uma cauda maior, foi então no momento em que a ave virou fazendo um círculo que pude visualizar características cruciais: cauda longa, ventre branco, um pequeno colar preto, coberteiras pretas e asas listradas, estava observando um indivíduo de Harpia, que pelo porte foi identificado como macho. Na época possuía um monóculo de péssima qualidade, porém foi o que me auxiliou na fotografia do indivíduo: 

Fotografia da espécie realizada no quintal, na zona urbana de Campo Limpo Paulista. Arquivo pessoal. 

A ave vinha do sul (mais ou menos a direção da casa de Eric) e foi sentido nordeste (Horta comunitária), em um voo lento e muito pesado, por vezes quase parando nos céus. 

Anotação de campo da observação do macho de Harpia harpyja. Arquivo pessoal.

Em 2019, mais precisamente a partir de outubro foi iniciado o processo de exploração de novas áreas para pontos de observações, foi escolhido então o ponto da Horta Comunitária, cerca de dois quilômetros de minha casa. A região despertava atenção, pois em grande maioria das observações de aves de rapina, as espécies vinham ou seguiam para a região, a exemplo propriamente da Harpia. As observações consistiam em períodos da tarde durante a semana e durante a manhã nos finais de semana. Em geral eram observados comumente Falco femoralis, Falco sparverius, Herpetotheres cachinnans, Caracara plancus, Geranoaetus albicaudatus, Geranospiza caerulescens, Buteo brachyurus e Accipiter erythronemius. Mas algumas vezes podiam ser observadas espécies de aves de rapina raras, um desses raros casos foi justamente com a espécie alvo deste artigo. No dia 10/11/2018 observava uma grande ave de rapina à uma grande distância, desta vez com um binoculo melhor, 10x42. Não conseguia identificar precisamente no momento, apesar de ter identificado como harpia, preferi fotografar para descartar a possibilidade de ser um Morphnus e estar confundindo as espécies em campo, estava pousada no alto de uma árvore, do outro lado do morro. Ponto do registro: 23°12'03"S 46°45'12"W • 837 m.

Fotografia em fundo verde para a visualização da coloração. Arquivo pessoal.

fotografia em monocromatico para facilitar a visualização do penacho. Arquivo pessoal.

O último registro da espécie foi sem fotografia, uma fêmea imatura observada no município de Jarinu durante uma pedalada. No dia 04/10/2020, por volta das 08:54h, foi observada uma grande águia de coloração predominantemente branca, asas largas e cauda relativamente comprida, de porte maior que de uma Harpyhaliaetus coronatus, saia de um ponto de uma montanha e cruzou os ares pelo vale em: 23°09'55"S 46°40'59" W cerca de 830m de altitude. Foi a primeira observação de um indivíduo jovem na região o que garantia uma possível reprodução da espécie na região de Jundiaí.

Anotação de campo da observação de fêmea jovem de Harpia harpyja. Arquivo pessoal.

Outros registros:

A presença da espécie na região de Jundiaí já era conhecida, curiosamente o naturalista Tomas Sigrist havia recebido uma ligação para visualizar uma jovem Harpia na região de Vinhedo, a ave aparentava machucada e foi capturada e fechada em um sítio na região. Por sorte Sigrist conseguiu fotografar o indivíduo. Aparentemente a ave estava realizando deslocamento para encontrar uma possível área para seu território, apesar de particularmente acreditar que o espécime ainda era muito jovem para realizar tais deslocamentos exorbitantes e poderia estar realizando saídas exploratórias na região em vez de, mais precisamente, estar em busca de novos territórios. Algo semelhante ocorreu com o indivíduo juvenil encontrado em Porto Nacional, Tocantins (registro de Gavião-real, Harpia harpyja (Accipitriformes, Accipitridae) em área urbana no bioma cerrado, pascoal-et-al, 2014), no entanto o indivíduo encontrado em Tocantins era mais velho, tornando-o um possível floater, ou seja, um viajante. 

Fotografia realizada por Tomas Sigrist, indivíduo jovem em Vinhedo, São Paulo. Nas proximidades do complexo florestal da Serra do Japi. 

Conclusão:

Assuntos como migrações de Harpia harpyja (algo que foi descartado) e a dinâmica dos displays nupciais foram bem investigados pelo Doutor Jorge Albuquerque e por mim e serão publicados em outro momento. Estamos acostumados a encontrar águias como Harpyhaliaetus coronatus, Spizaetus tyrannus, Spizaetus ornatus e Spizastur melanoleucus em centros urbanos, mas por pensarmos na improbabilidade da existência de predadores maiores, esquecemos que há sim uma possibilidade maior do que a imaginada dessas grandes águias surgirem em centros urbanos do sul e sudeste do Brasil, mesmo que raramente. Se há muitas presas, um ambiente razoável, temos de considerar que os predadores irão seguir a comida e pensarmos ainda mais sobre um fato: estes superpredadores alados evoluíram para não serem vistos, mesmo que pensemos que seria impossível não ver uma águia gigantesca sobrevoando acima de telhados. Precisamos aprender a entender estes animais da maneira real em que vivem, predadores que se adaptam cada vez mais à condições inóspitas, especialmente quando suas presas também se adaptam. Claramente não digo que em todas as cidades esses predadores podem ser vistos, existem fatores externos muito maiores para determinar a presença ou extinção de grandes águias em determinadas regiões, no entanto não podemos descartar a ideia de que na maior parte do tempo deixamos passar batido novas fontes de conhecimento sobre espécies pouco conhecidas — não apenas Harpia ou as águias, mas mamíferos ou outros predadores como Accipiter, Falco deiroleucus, etc.

A presença de espécies raras como Morphnus guianensis, Spizaetus sp e Harpia harpyja é relativamente difundida por moradores locais, gerando um conhecimento local único, o convívio que possuem com espécies como esta são bastante comuns e por vezes podem gerar problemas, alguns indivíduos podem ser abatidos e se machucando, como o caso da harpia de Vinhedo, encontrada por Tomas Sigrist. Os jovens desta espécie em particular talvez sejam os que mais sofram devido aos deslocamentos de grandes escalas em busca de novos territórios e parceiros, pois acabam se revelando mais que costumam, tornando-os alvos fáceis. Porém surpreende-me como a presença da espécie no estado de São Paulo é conhecida e reconhecida, sabemos da presença desta grande ave de rapina para as mais diversas regiões como Ubatuba, São Paulo, no entanto a ausência de amostragens e uma certa falta de interesses em registrar a espécie resulta em quase vinte anos sem registros oficiais, vale ressaltar que de acordo com a lista estadual de espécies ameaçadas do estado de São Paulo, 2018 a ave consta como extinta. Em contraponto, há esta população residente de harpias a cerca de 50 quilômetros da maior metrópole das Américas, a capital São Paulo.

Atenciosamente, 

Henrique Mariano Martins


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