O grande enigma: Phyllomyias reiseri

A procura 

Durante seis anos que pude realizar saídas em campo na região de Frutal-MG, um município no vale do Rio Grande, na divisa de São Paulo com Minas Gerais, existia um objetivo de encontrar uma espécie em específico: Phyllomyias reiseri

Este pequeno passarinho, pertencente à família Tyrannidae, é uma das espécies mais raras e desconhecidas existentes no Brasil Central, exclusivo de florestas decíduas, semidecíduas e florestas de galeria do domínio fitogeográfico do cerrado, ocorrente nos Estados do Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Goiás, Bahia e Tocantins. Geralmente os registros desta espécie estão localizados nas florestas nos altos de chapadas, acima dos 700 metros de altitude. O desafio aqui enfrentado estava especialmente no quesito da altitude, a região de Frutal possui altitude máxima de 670m, isso apenas no alto da cadeia de chapadas, na serrinha. Além disso a região apresenta alto grau de fragmentação e devastação de habitat. Mesmo um ambiente tão fragmentado, ainda possui diversos ambientes condizentes com àqueles utilizados pela espécie. Era então nesta região aos arredores da Serrinha que as amostragens atrás deste passarinho possuíam maior concentração das amostragens, no entanto durante estes anos, nunca houve resposta da espécie, apenas um fator que ainda deixava esperanças era que, mesmo raramente, algumas espécies interagiam um pouco ao playback de P. reiseri.

Apesar do esforço, passaram cerca de dois anos sem nenhuma interação entre as espécies com o playback ou resposta do pequeno passarinho. Já quase desistindo, em 08/XI/2020 resolvi tocar playback em uma pequena mata de galeria não inundável de boa qualidade na região da bocaina, uma das áreas adjacentes da Serrinha, um pouco mais baixa em quesito de altitude, localizada entre 570m a 640m, possuindo zonas com encostas florestadas com mata semidecidual e Cerrado, áreas de mata de galeria inundáveis e não inundáveis e até manchas de cerradão. Como já muito esperado a espécie sequer respondeu, mas houve forte interação de espécies como Herpsilochmus longirostris, H. atricapillus, Thamnophilus doliatus, T. pelzeni, Basileuterus hypoleucus e Myiothlypis leucophrys. Esta interação ascendeu novamente a dúvida se esta espécie de fato ocorreria no local. 

Diante ao acontecido, realizei alguns meses de esforço amostral na região, mas não houve sucesso. Apesar disso, já estava convencido que teria encontrado a região certa da espécie e também seu ambiente.

A descoberta 

No dia 06/VI/2021, durante uma das típicas saídas de domingos na região da bocaina, resolvi andar nas regiões próximas à sede da fazenda em que costumeiramente visito, após ter andado um determinado tempo com pouca atividade de aves, depois ter ouvido um Micrastur semitorquatus vocalizando, resolvi voltar e explorar a região do brejo, seguindo sentido à reserva da fazenda, um cerrado strictu sensu denso, onde localiza-se a mata de galeria não inundável em que houve interação das espécies de bando misto com o playback de reiseri. Naquele dia, bastante calmo, não estava sequer lembrando da possibilidade de encontrar a espécie, andando descompromissado e prestando atenção nos passarinhos comuns que rotineiramente estou acostumado. Após andar bastante, cheguei na reserva da sede, onde optei andar pelo cerrado ao invés de descer para a floresta de galeria, opção esta que fez completa diferença. No cerrado, ao contrário da floresta de galeria inundável próxima à sede e do brejo, as aves ali se apresentavam em total atividade, estavam ali Thlypopsis sordida, Dacnis cayana, Stilpnia cayana, Conirostrum speciosum, Thraupis sayaca, Coereba flaveola, Basileuterus hypoleucus, Thamnophilus pelzeni, Herpsilochmus longirostris, Myiothlypis flaveola, Turdus leucomelas e Todirostrum cinereus.

 Diante a um morotótó (Schefflera morototoni), em um breve momento de silêncio das outras espécies de aves, às 09:50 horas da manhã quebrava o silêncio uma vocalização extremamente característica: um trinado um tanto metálico e alto, áspero, "prrri prrri prrri prrri", automaticamente reconheci a voz, finalmente após anos havia encontrado o estimado Phyllomyias reiseri. Após a vocalização, busquei localizar a pequena ave nas copas das árvores próximas daquele denso cerrado, no fundo da garganta, até que localizei o pequeno tyrannideo predominantemente claro, amarelo e oliváceo, com a cabeça levemente mais escurecida, assim como seu dorso, apresentava a mandíbula rósea, bico curto, anéis oculares brancos e uma espécie de sobrancelha, formando um "óculos" mais claro, garganta branca, possuía duas faixas nitidamente claras nas coberteiras e penas das asas com bordas mais claras, todo o ventre amarelo. Observei atentamente com o binóculo, no entanto o tão esperado momento durou apenas alguns segundos, pois a ave foi alvejada por um casal de Elaenia cristata, que o forçou a voar em direção à mata de galeria. O ambiente em que a ave foi registrada foi em uma baixada mais densa e alta de cerrado, estava a apenas 80 metros de distância da floresta de galeria mencionada anteriormente. Mesmo que muito curto o período em que observei a espécie, o momento foi de suma importância, havia finalmente garantido a existência do passarinho na região. Satisfeito com o encontro, mas com uma sensação de querer mais, o tão misterioso reiseri assim como todo mistério, desapareceu em meio ao seu ambiente, ficara a dúvida pairando: quando será que o encontrarei novamente?

Anotação de campo

 
Morototó (Schefflera morototoni)

Pessoalmente acreditava que demoraria talvez anos para encontrar novamente a espécie, mas não esperava o que estaria por vir. No dia 17/VII/2021, resolvi realizar uma saída de campo na região do córrego bebedouro, região relativamente baixa localizada entre 530m em seu ponto mais alto e 474m em seu ponto mais baixo. A região possui forte influência atlântica, sendo uma região completamente florestada, mas transicional, uma completa mistura entre floresta estacional semidecidual, floresta de galeria não inundável e algumas manchas de cerrado, um vale com desnível acentuado, possuindo inclusive uma área de encosta. Após alguns meses sem visitar o local, estava explorando descompromissado em encontrar alguma espécie mais rara, nesta região em específico não esperava de forma alguma localizar a espécie chave deste artigo, no entanto, o que ocorreu foi completamente o contrário, deixarei aqui a transcrição de minhas notas de campo: 

"Notas de observação: Phyllomyias reiseri 


Assim que atravessei a baixada dos jequitibás, por volta das 0729h me despertou muita curiosidade a vocalização de um par de Cranioleuca vulpina, fato curioso por estarem distantes da água, na crista de pedra na encosta do vale. Também notava logo ali debaixo que outras aves estavam por perto, sendo provavelmente um bando misto em atividade. 

Averiguando a situação no local, pude notar a presença de 8 Thamnophilus pelzeni, 11 T. doliatus, 3 Herpsilochmus atricapillus, 6 H. longirostris, 4 Galbula ruficauda, 2 Lepdocolaptes angustirostris, 5 Hemitriccus margaritaceiventer que curiosamente estavam muito ativas no sub-bosque no interior da floresta, 3 Todirostrum cinereus, 3 Tolmomyias sulphurescens, 4 Polioptila dumicola, 5 Basileuterus hypoleucus, 1 Myiothlyps flaveola, 5 Clibanornis rectirostris, 3 Turdus leucomelas, 1 Myiarchus ferox, 3 Myiopagis caniceps, 1 Myiopagis viridicata, enquanto perifericamente se encontravam 2 Picumnus cirratus, 4 Picumnus albosquamatus, 1 Pachyramphus polychopterus, 2 Poecilotriccus latirostris e 2 Myiornis auricularis. No centro chamaram atenção os Cranioleuca a 155m de distância do córrego. Em: 20°00'48''S 48°59'05''W, 498m. 

Este bando misto em bom porte se movimentava em direção à nascente, forrageando desde o nível do solo até às copas. Foram se aproximando aos poucos, Cantorchilus leucotis, mas não consegui calcular quantos.

Durante este alvoroço do bando misto, ouvi uma série de trinados fortuitamente altos e um tanto metálicos: "prrri prrri prrri prrri" inconfundíveis, vindo do subdossel da floresta. No mesmo momento passei a procurar o emissor, Phyllomyias reiseri, no meio das outras aves, por volta das 0740h. Vindo da esquerda , de onde o bando veio, consegui localizar um pequeno tyrannideo que pousou na galhada baixa de um angico (Anadenanthera colubrina) nascido mais abaixo da encosta, me permitindo ter uma ótima visibilidade à altura dos olhos, o tyrannideo era amarelo saturado no ventre, com alguns rajados levemente mais acinzentados na ponta do tórax, apresentava cabeça, manto e dorso oliváceos, com as penas das asas com bordas claras, uma das terciárias me despertava atenção por ser muito característica, apresentava bico relativamente curto e roséo na mandíbula, com anel ocular branco e uma espécie de "sobrancelha", formando o óculos característico. No momento já havia percebido estar observando de fato o P reiseri, emissor da voz.

A ave se apresentava mais calma que o último indivíduo observado na bocaina. Forrageava no cabo das folhas do angico, procurando insetos, subindo lentamente de pulos em pulos para as copas das árvores mais acima da encosta. Consegui observá-lo capturando um pequeno invertebrado. Logo que subiu, pousando em um galho completamente seco de angico, dominado por cipós, onde vocalizou novamente e seguiu subindo, indo em direção à nascente também, mas se direcionando mais diagonalmente, sentido à borda da mata, no topo da encosta. Não houve nenhuma interação agonística com as outras espécies, diferente do indivíduo da bocaina. 

A ave pousava apenas nos galhos finos adjacentes das árvores ou nos galhos mais finos das pontas, onde nascem as folhas. O estilo de forrageio não é tão ativo quanto Phylloscartes ou Serpophaga subcristata, ficando mais instantes parado e depois se atirando nas folhas. Em um momento pendurou-se na ponta da folha, de cabeça para baixo, comendo alguma pequena presa. Após cerca de 4 minutos no dossel da mata, se afastou do bando e desapareceu. Não respondeu playback". 

Nesta ocasião em específico consegui realizar a documentação da espécie, fazendo observações tão esperadas. Este momento supriu o curto período da descoberta na bocaina.  Abaixo, deixarei a imagem do indivíduo e os esquemas das anotações de campo:

 Fotografia do indivíduo observado em 17/VII/2021

Ambiente em que a espécie foi observada. Floresta estacional semidecídua.

Esboços sistemáticos de morfologia e comportamentos realizados em campo.


Atenciosamente, 
Mariano, HM.










Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Monitoramento de Aves de Rapina: a verdade das rapineiras em São Paulo.

Harpias no estado de São Paulo